Onde foi que aprendi sobre liberdade

Noorjahan Akbar

Por Noorjahan Akbar – Ativista pelos direitos das mulheres afegãs, cofundadora da organização Young Women for Change, autora do UN Dispatch e correspondente afegã para o A Safe World for Women.

A maior parte do meu trabalho e dos meus textos está focada nas atrocidades e injustiças cometidas contra mulheres no Afeganistão, mas, neste blog, eu gostaria de discutir sobre outro tipo de injustiça.
Recentemente, uma jornalista estadunidense me enviou uma versão preliminar de seu artigo sobre meu trabalho, para edição. Em um parágrafo ao longo do texto, ela afirmava que eu tinha tido a rara oportunidade de receber uma educação e uma formação escolar nos Estados Unidos da América, e que essa experiência de liberdade me garantiu a possibilidade de nunca sofrer injustiças novamente. Nessa frase, eu notei várias concepções que ela fazia da minha pessoa e de minha cultura, e o contraste em relação à cultura dos Estados Unidos, algo que se reflete muito na literatura produzida neste campo.
Muitos dos textos sobre ativistas afegãs que lutam pelos direitos das mulheres se baseiam na concepção de que nós, mulheres afegãs, aprendemos sobre liberdade e igualdade quando vamos para países que não são nossas pátrias e nossas culturas, e no meu caso particular, acredita-se que o fato de eu ter estudado nos Estados Unidos me trouxe um gostinho de liberdade e me levou a lutar contra a injustiça. Acredita-se na ideia de que eu era uma oprimida e, consequentemente, mera vítima no Afeganistão, e que, se não fosse pelo tempo que passei nos Estados Unidos, eu não teria me transformado em uma ativista pelos direitos das mulheres.
Esse monopólio dos valores universais tem muitas consequências negativas. Ele contribui para uma visão binária do mundo, em que metade das pessoas é “progressista” e “civilizada” e o restante, desprovido dessas características e desses valores. Além disso, esse tipo de literatura ajuda a construir o discurso usado para deslegitimar as ativistas afegãs como mulheres “ocidentalizadas”. A ideia de que eu ou outras ativistas aprendemos sobre a liberdade nos Estados Unidos se torna, assim, uma faca de dois gumes usada para nos rotular, tanto aqui no Ocidente quanto em nossos países. A ideia de que liberdade ou liberação são conceitos unicamente estadunidenses, ou ocidentais, e de que, consequentemente, nós aprendemos sobre liberdade na América (já que nossas culturas somente nos oprimem e não há possibilidade de liberação em nossa terra natal) é absurda.
Eu não aprendi sobre liberdade na América.
Eu aprendi sobre liberdade com meus pais. Quando eu tinha seis anos, eles decidiram que não queriam viver sob o regime do Talibã e queriam educar suas filhas livremente. Eles abandonaram toda a vida que haviam construído, tudo o que haviam feito durante suas vidas, para serem livres.
Eu aprendi sobre liberdade com minha tia. Quando estava com quarenta anos, ela decidiu aprender sozinha a ler e escrever, para ser mais independente. Ela permitiu que sua única filha viajasse milhares de quilômetros para que pudesse ter uma formação escolar e ser livre.
Eu aprendi sobre liberdade com as mulheres do meu país, que cantam sobre ser livre em dúzias de idiomas e dialetos, e que contam às suas filhas histórias de liberdade.
Eu aprendi sobre liberdade com prisioneiras políticas afegãs, jornalistas e escritoras, que preferem a prisão ao silêncio e à opressão.
Eu aprendi sobre liberdade com um soldado do Exército Nacional Afegão, que conheci no ano passado. O nome dele é Nadeem e ele arrisca sua vida todos os dias, não por causa dos 150 dólares que ele recebe como salário, mas para libertar seu país do radicalismo.
Eu aprendi sobre liberdade com a poesia de Rabia Balkhi, uma princesa que conseguiu abalar a divisão de classes e a discriminação sexual ao se atrever a amar um escravo, e que foi assassinada por querer ser livre para amar quem ela escolhesse.
Eu aprendi sobre liberdade com Merman Parwin, que rompeu com tradições opressivas ao se tornar a primeira mulher a cantar em uma rádio afegã.
Eu aprendi sobre liberdade com Batool Muradi, que foi acusada de adultério por seu marido, o que pode ter sérias consequências, mas decidiu não ficar calada.
Não. Eu não aprendi sobre liberdade na América. A ânsia por liberdade não é algo ocidental, e a concepção de liberação não é algo inventado no Ocidente, não é algo que eu só poderia conhecer nos Estados Unidos. A liberdade está no meu sangue, e no sangue de milhões de mulheres e homens que nunca estiveram nos Estados Unidos, mas que sabem que, sendo seres humanos, merecem ter o direito de respirar o ar puro e ter opiniões, sem medo de serem condenados por isso. Sendo um país cujos fundadores eram senhores de escravos, um país com séculos de escravidão e segregação, mentalidade colonial e imperialista, além de altos números de negros em suas prisões, os Estados Unidos não poderiam ser minha inspiração para lutar por liberdade.
Young Women for Change, organização criada por Noorjahan Akbar e Anita Haidary em prol dos direitos das mulheres afegãs
As mulheres do Young Women for Change

Felicidade segundo Utopia

Utopia (1516), de Thomas More é um dos livros mais falados e importantes da filosofia e política ocidental. Com certeza você deve ter ouvido falar dele nas aulas de Filosofia e História e foi ele que eu li esses dias.

O livro descreve uma ilha perfeita (utopia vem do grego utopos, que significa “lugar que não existe”), onde se vive um comunismo impossível e confesso que muitas vezes fiquei indignado por ver certas coisas impossíveis funcionando.

O que fez o livro se tornar tão famoso e importante, porém, foi a critica à política absolutista. Muitos trechos se aplicam inclusive ao regime “democrático” do mundo atual. E, como sempre digo aqui no blog, é uma importante leitura também para mudar atitudes individuais (estas incluem lutar por uma política mais justa). Uma coisa bem legal que vi nesse livro foi a visão sobre felicidade e é nisso que vou trabalhar o resto do post.

Nós somos acostumados a achar que consumir dá felicidade, que conseguir determinada coisa dará felicidade, mas se eu perguntar quem conseguiu felicidade com isso, a resposta será “ninguém”.

Segundo os utopianos a felicidade vem através de prazeres bons e honestos. Ou seja, coisas “prazerosas”, como o uso de drogas e bebidas, que na verdade fazem muito mal para o corpo, não são prazeres verdadeiros. E segundo eles, existem dois tipos de prazeres: mentais e corporais.

Prazer mental é a descoberta de algo novo, o estudo e etc.

Prazer corporal é uma sensação imediata de prazer, uma descarga de excesso, contemplar obras de arte ou simplesmente ter o organismo em um funcionamento regular.

Porém, só assim podemos ser felizes? Eu creio que os utopianos têm uma visão boa sobre felicidade, mas também podemos ser felizes em meio a doença. Felicidade é atitude. Mesmo tudo dando errado, eu posso ser feliz.

Parece impossível? Não é. Pode ser difícil no começo, mas é completamente possível. Seja feliz por atitude e eu garanto que sua vida vai mudar para infinitamente melhor.

Compre o livro: Livraria Cultura, Kobo, Kindle (de graça!).

Ajude alguma instituição

Eu estava indeciso quanto ao que escrever neste post, mas a ideia sempre foi a mesma. Eu quero chamar vocês a ajudar instituições de caridade.
Muitas pessoas se perguntam “por que fazer isso?”, mas não vou argumentar muito aqui. Eu creio que o motivo mais importante seja fazer simplesmente por amor, por querer ajudar, por não gostar de ver pessoas sofrendo. Eu creio que se algum ser humano vê outro sofrendo e não sente nada, está com sérios problemas, o que está sendo bem comum atualmente.
Se você tem desejo de fazer do mundo um lugar melhor e de ser feliz, ajude os outros. Eu garanto a vocês que só há felicidade na vida quando a compartilhamos com os outros, quando ajudamos e somos ajudados pelos outros. Ser orgulhoso traz insegurança, medo e infelicidade.
Também é bom lembrar que as chances de você ter nascido extremamente pobre, com uma séria doença ou algo do tipo ainda são altas. Ou seja, aquela criança morrendo antes mesmo de aprender a falar, poderia ser você. E mesmo você vivendo uma boa vida, você vai precisar (e já precisou) da ajuda de alguém.
Por isso, deixo aqui em baixo links e curtas descrições de instituições filantrópicas. É claro que vocês podem ajudar outras instituições, mas fica aqui algumas indicações. As que mais conheço (e admiro muito) são as três últimas.

Doar 50 reais por mês não vai te falir e vai ajudar muita gente!

Seara Urbana
Recuperação e reintegração de moradores de rua em Campinas/SP.

Labor
“A Labor Educacional foi fundada em 1992, como uma instituição sem fins lucrativos, por uma equipe de educadores em busca de uma proposta pedagógica diferenciada que priorizasse a permanência na escola de crianças com histórico de fracasso escolar ou em processo de evasão. Através de parcerias e apoios técnico-financeiros de instituições governamentais e privadas, atua junto às escolas públicas, introduzindo modificações na vida escolar, em harmonia com a nova legislação brasileira (LDB, PCN, etc.), que contribuem para a solução dos principais problemas da educação.”

Missão Criança
“A proposta institucional do Missão Criança é acolher e promover socialmente crianças e adolescentes em situação de vunerabilidade social, resgatar a dignidade, possibilitar a reconstrução da cidadania e inserção na sociedade. Isso tudo em um ambiente familiar e com condições físicas necessárias para uma boa convivência e um crescimento sadio, conforme artigo 92 do Estatuto da Criança e do Adolescente.”

Bill & Melinda Gates Foundation (em Inglês)
Instituição de Bill Gates (co-fundador da Microsoft) e sua esposa, Melinda. Entre seus principais objetivos estão a saúde mundial.

Bill e esposa, Melinda Gates

One (em Inglês)
Cofundada por Bono Vox, vocalista do U2, ajuda a exterminar a pobreza extrema.

Blood: Water Mission (em Inglês)

“Superando HIV/AIDS e as crises de água na África. Juntos.”

Luta contra o HIV/AIDS e pela água limpa na África, uma coisa de extrema necessidade e pouco levada a sério. Tem um excelente jeito de se trabalhar e se relaciona muito bem com a população.

Criada pelos membros da banda Jars of Clay.

Mulheres, meus parabéns!

Mulheres ganham menos, apanham dos maridos, são estupradas com maior frequência do que homens e ainda tem gente que acha que está tudo bem. Até reclamam: “por que ninguém fala do dia do homem?”. Existe esse dia, mas ser homem nesse mundo é muito mais fácil do que ser mulher. Você, homem que está lendo esse texto e acha que está tudo bem para as mulheres, gostaria de ganhar menos, apanhar do cônjuge e ser estuprado?

É claro que isso não acontece a todas as mulheres. O marido pode (e deve) ser justo com sua esposa, mas quando algo de ruim atinge uma mulher, atinge a classe toda.

Também não digo que as mulheres são melhores do que os homens, mas elas, com certeza, têm um mérito maior por lutar tanto pelo que desejam, por fazerem muito bem o que querem mesmo com inúmeras barreiras.

Tomemos por exemplo uma mulher casada que deseja estudar. Ela, além de ter que se esforçar nos estudos (se o marido “deixar”), vai ter que cuidar dos filhos, da casa, da louça, etc, enquanto o maridão fica na sala vendo o jogo e tomando cerveja.

Aliás, por que não ser a favor do feminismo? Feminismo não é uma ditadura, não é colocar a mulher como superior. Feminismo é dar direitos iguais a ambos, homens e mulheres. O que há de errado nisso? Sei que existem mulheres que mancham o movimento, mas a verdade é que precisamos dessa igualdade, pois ela é justa.

Se você é machista, primeiro: está profundamente cego, a genética prova que você está errado; segundo: você é livre para ser do jeito que quiser (desde que não infrinja a liberdade alheia), por que não deixar as mulheres serem livres também? De novo, e desta vez sem querer, digo aqui: você não é melhor que ninguém.

Termino parabenizando as mulheres por tudo que têm feito. Continuem nessa luta! E, no que depender de mim, vocês terão uma vida mais justa.