Se você não sabe viver sem, não sabe viver com

Desde alguns dias estou tendo problemas com meu computador. Eu não conseguia usar e ficava pirado. Saía dele direto para o meu smartphone. Refletindo sobre isso me veio à mente esta frase: se você não sabe viver sem, não sabe viver com. E realmente, se eu não sei viver sem internet/computador, não sei como usá-la devidamente.
Estou tentando melhorar o jeito que utilizo o computador. Viver mais sem ele, menos redes sociais e mais socialização, etc. A tecnologia é algo incrivelmente bom e útil, mas tem que utilizar do jeito certo.
A frase em questão provavelmente serve pra quase tudo (pra não dizer tudo). Reflitam!

Se você não sabe viver sem, não sabe viver com.

O corvo, de Edgar Allan Poe

 

(Edgar Allan Poe – 1845)
 
Era meia-noite fria; e eu, débil e exausto, lia
alguns volumes de vagos saberes primordiais.
E, já quase a adormecer, ouvi lá fora um bater
como o de alguém a querer atravessar meus portais.
“É um visitante que intenta atravessar meus portais” –
pensei. – “Isto, e nada mais!”
 
Tão claramente me lembro! Era o gelo de dezembro;
e o fogo lançava – lembro – no chão manchas fantasmais.
Pela aurora eu suspirava e nos livros procurava
esquecer a que ora errava entre as legiões celestiais –
aquela que hoje é Lenore entre as legiões celestiais,
sem nome aqui por jamais.
 
E o mover suave e magoado do ermo, roxo cortinado
me deprimia e me enchia de terrores espectrais;
de modo que eu, palpitante, calando o peito ofegante,
repetia: “É um visitante que vem cruzar meus portais,
um visitante, somente, que vem cruzar meus portais.
Isto apenas – nada mais.”
 
Então minha alma ganhou força e não mais hesitou.
“Senhor” – eu disse – “ou senhora que lá fora me chamais.
Mas, porque eu quase dormia, mal ouvi que alguém batia,
que com sossego batia e discrição tão iguais,” –
murmurei, abrindo a porta – “que ao silêncio eram iguais.”
E vi treva, nada mais.
 
A escuridão perquirindo, lá fiquei, tremendo, ouvindo,
sonhando, em dúvida, sonhos que mortal sonhou jamais.
Mas o silêncio insistia, e a calma nada dizia,
e a única voz que eu ouvia eram meus profundos ais
e o nome dela entre os ecos dos meus repetidos ais.
Só isto, só, nada mais.
 
Ao cômodo retornando – minha alma em mim se incendiando –,
ouvi de novo mais forte baterem aos meus umbrais.
“É alguém que bate, lá fora, à minha janela agora
e entrada talvez implora” – pensei, e busquei sinais. –
“Acalma-te, coração, pois que são estes sinais
só o vento e nada mais.”
 
E então abri a janela, e eis que penetrou por ela
na câmara um nobre Corvo desses de eras ancestrais.
Entrou sem deferimento, sem fazer um cumprimento,
dama ou lorde pachorrento, e pousou sobre os umbrais.
Pousou num busto de Palas que havia sobre os umbrais,
pousou lá, e nada mais.
 
Frente à ave preta, surpresa, sorriu-se a minha tristeza,
vendo o seu grave decoro e os seus ares senhoriais.
“Sem crista embora, e tosado,” – disse eu – “pareces ousado,
duro e antigo Corvo, nado dos noturnos litorais.
Dize-me o teu nobre nome lá nos negros litorais!”
E ele disse: “Nunca mais.”
 
Meu espanto foi tremendo tais palavras entendendo
(apesar de sem sentido) que ele disse, naturais.
E quem não teria achado que um homem ter avistado
um pássaro assim pousado por cima dos seus umbrais
é grande espanto, ainda mais no busto sobre os umbrais,
com o nome de “Nunca mais”?
 
Porém a ave ali quieta nada mais disse, discreta,
como se a alma toda desse nesses ditos essenciais.
E nada mais pronunciou, nenhuma pena agitou,
até que de mim saltou: “Amigos já não tem mais.
Na manhã, como os meus sonhos, aqui não estará mais.”
E o Corvo então: “Nunca mais.”
 
Atônito, ouvindo aquilo que ele enunciara, intranquilo
eu disse: “É tudo o que sabes, e mais adiante não vais.
É o que no passado ouviste de algum dono a cujo triste
destino acaso assististe com teus olhos penumbrais –
e cuja dor se exprimia nas sílabas penumbrais
do teu bordão: ‘Nunca mais.’”
 
Mas, sem dele desistir, voltou minha alma a sorrir;
e uma poltrona arrastei para junto dos umbrais.
E, então ali me assentando, uns aos outros fui juntando
mil devaneios, pensando na ave de eras ancestrais,
na lenta, negra, agourenta ave de eras ancestrais
que dizia “Nunca mais”.
 
Lá fiquei, a cogitar, sem um dito endereçar
à ave, cujos olhos fixos em meu peito eram punhais;
lá fiquei, absorto e mudo, pendida sobre o veludo
a cabeça em tal estudo, sob as luzes espectrais –
o veludo que Lenore, entre as luzes espectrais,
não tocará nunca mais.
 
Supus que o ar ficou mais denso de algum ignorado incenso
que os serafins esparzissem com passos angelicais.
“Teu Deus” – me disse – “gerou-te; pelos seus anjos mandou-te
o esquecimento, e aliviou-te de tuas dores brutais!
Bebe o nepente e te esquece de tuas dores brutais!”
Disse o Corvo: “Nunca mais.”
 
“Profeta ou demônio” – eu disse – “que uma asa negra vestisse!
Se foi a procela ou o diabo quem te trouxe aos meus portais;
se nesta terra arrasada, deserta, agra e amaldiçoada,
se nesta casa assombrada pelo horror, de que não sais,
existe alívio – eu te indago, a ti que daí não sais!”
Disse o Corvo: “Nunca mais.”
 
“Profeta ou demônio” – eu disse – “que uma asa negra vestisse!
Pelo alto Céu que nos cobre, pelo bom Deus dos mortais,
dize a esta alma – te conjuro – se nalgum Éden futuro
ela há de rever o puro ser que agora não vê mais,
de Lenore o ser radiante e puro que não vê mais.”
Disse o Corvo: “Nunca mais.”
 
“Que a senha do nosso adeus seja esse dito, ave ou deus!
Retorna, pois, à procela e aos noturnos litorais!
Sequer uma pluma reste a lembrar o que disseste
e que em meu tédio irrompeste! Deixa, pois, os meus umbrais!
Não biques mais o meu peito e foge dos meus umbrais!”
Disse o Corvo: “Nunca mais.”
 
E o Corvo não foi embora: lá ficou, lá se demora,
pousado no busto branco de Palas, sobre os umbrais,
com a aparência tristonha de algum demônio que sonha;
e a luz no piso desenha seus contornos fantasmais;
e eis que, perdida, minha alma dos contornos fantasmais
se livrará – nunca mais!
 
(Tradução de Renato Suttana)

Mais estadunidense do que o beisebol e a torta de maçã: A cultura estadunidense da violência

por Saul Landau


Quando criança, eu brincava de jogos de guerra (caubois matando índios). Meus amigos e eu tínhamos hábito e atirar uns nos outros, com armas de brinquedo é claro. No meu bairro do Bronx Sul, os membros de gangue mais velhos tinham armas reais e às vezes atiravam uns aos outros. Como nos filmes! Os desenhos que eu adorava quando criança eram carregados de violência, tal como os filmes de guerra de Hollywood que faziam propaganda para a guerra real contra Japão e Alemanha.
Quando James Holmes ceifou 12 e feriu quase 60 pessoas em um cinema no Colorado, senti violência fresca entrar no meu corpo como se uma massagista tivesse me lambuzado com hostilidade líquida antes de começar a massagem. Agressão penetrou meus poros, inundou meu cérebro e cobriu as células do meu coração. Enquanto os meios de comunicação informavam o número de rajadas disparadas, os tipos de armas possuídas pelo assassino e da anatomia do apartamento-armadilha tipo Holmes, o presidente Obama e o candidato Romney proferiam declarações brandas sobre a necessidade de oração, e consolo para as famílias das vítimas. Nem mencionaram o controle de armas ou a cultura da violência que define os Estados Unidos. Liberdade parece igual a posse de arma para a National Rifle Association e muitos de seus membros.
A violência, mais estadunidenses do que torta de maçã e beisebol, tornou-se uma questão social maior e um grave problema de saúde pública. Quase todos os dias alguém dispara e mata alguém em inúmeras áreas metropolitanas. Famílias sofrem, os policiais dizem que estão investigando e jornais e emissoras de TV fazem reportagens. Eu, igual a dezenas de milhões de pessoas, vejo as histórias de sangue na TV e facilmente caio no poço do fascínio dos desdobramentos e sequelas da violência. Mas a mídia não analisa ou procura temas subjacentes em atos horríveis como o de Aurora ou idênticos. Em vez disso, eles os usam para vender telejornais, jornais e conseguir anunciantes.
Na verdade, a mídia nos embebeda com a cultura da violência. Em filmes de Hollywood e da TV, a morte violenta se tornou a única fórmula para a retribuição adequada. Vilões de filmes sofrem fins hediondos – a justiça de cinema. A violência como a metáfora cultural bem se adapta a um país que durante décadas tem vivido em guerra perpétua, apoiada pelos donos da economia de guerra.
A carnificina de Aurora aconteceu depois dos massacres de Columbine High School, Virginia Tech, Fort Hood e no supermercado em Tucson, Arizona, e dos tiroteios mais recentes em Chicago e Tuscaloosa. Uma vez que este é um ano eleitoral, não ouvimos apelos generalizados para uma legislação que limite a venda de fuzis de assalto, nem ouvimos uma crítica justificável das políticas nefastas da ARN. Em vez disso, o público estadunidense viu-se inundado com números sobre violência armada que vão desde o fato de que mais de 84 pessoas são mortas diariamente com armas à estatística chocante de que existem mais de 30.000 mortes relacionadas com armas de fogo anualmente no nosso país. Compare o uso de armas para matar pessoas com Inglaterra. Em 2010, houve 8.775 assassinatos por armas de fogo nos EUA, em comparação com 58 na Grã-Bretanha. Assassinato em massa a tiros tornaram-se o tesouro amado de milhões de estadunidenses que abandonam políticas óbvias de seu próprio interesse diante de qualquer indício de que um político tem intenção de controlar a posse de armas. O ARN agora tem o Congresso e o presidente sob suas garras institucionais à medida que coleta de dólares de fabricas da armas e serve seu mingau sádico como evangelho cristão (Jesus teria tido um grande arsenal em sua casa) para a sociedade estadunidense comer. Mas a violência nos Estados Unidos transcende o controle de armas.
A violência define a cultura estadunidense. Ligue em desenhos infantis ou qualquer espetáculo de “drama” e veremos e ouviremos sons e imagens de agressão contra os outros. A política externa dos EUA defende a violência como solução para os problemas. Bombardeia Kosovo, a Líbia. Invade o Iraque ou agora a Síria. Quer bombardear o Irã. Os filmes de Hollywood, futebol e hóquei profissionais, jogos de vídeo – tudo força a exibição de violência para puxar o público para o seu principal meio de atração. A dominação masculina brutal tornou-se a estética estadunidense de “entretenimento.” A mídia vende a violência, da mesma forma como a linguagem da violência molda o discurso político. Em Hollywood, raramente um filme é levado aos cinemas sem a soco e o som de um punho batendo num rosto, uma bala rasgando através de um corpo ou um carro empurrando outro carro para fora da estrada. Nosso sistema prisional cresce cada vez mais, com os seus primos industriais, em paralelo à militarização das forças policiais locais. O presidente dirige o “comitê de assassinato no exterior”, a decidir quais pessoas serão hoje “droned”. Desde que invadimos e ocupamos outros países rotineiramente, nos acostumamos à guerra permanente, e nossos jovens conhecem armas e as usaram contra os outros no Oriente Médio. O sargento Robert Bales ceifou cerca de 15 afegãos, e supomos que foi em resultado de seus traumas de guerra. É mais fácil atribuir o stress de guerra como um motivo para assassinato em massa do que descobrir por que a cada dois meses alguém começa a atirar nos outros na rua, em um shopping ou um cinema.
A violência do Estado fica encoberta na legitimidade. Nós matamos pessoas para a nossa segurança por drones guiados a distância no Paquistão, no Iêmen e na Somália, enquanto continuamos a exercer a nossa vontade violenta no exterior. Na era da guerra perpétua, com assassinatos, um ataque às liberdades básicas e uso de drones para proteger nossa segurança, nós também sofremos luto nacional cada vez que um “maluco” mata “inocentes” civis – diferentes daqueles que morrem no exterior, como danos colaterais. A alta  na contagem de corpos dos Estados Unidos parece ocorrer como uma estatística paralela aos atos violentos executados no exterior. Soldados estadunidenses matam civis afegãos. “Equipes de matadores” dos EUA andam por lá e podemos nos perguntar por que alguma coisa dessa cultura de assassinato poderia se espalhar na volta para casa. Nosso orçamento militar literalmente liga o país à guerra e a uma economia de guerra.
A culpa pelo crime violento é descarregada sobre as minorias. Lemos diariamente sobre prisioneiros (principalmente homens negros) que recebem a pena de morte. Mas nada acontece às pessoas que projetam armas automáticas, a não ser que a recompensa por fazer um bom trabalho. Seus patrões, os magnatas culturais finais, criam violência para fins de lucro. Eles fornecem a inspiração para a cultura moderna dos EUA.
Agora vamos rezar, mas manter a arma pronta para uso no cinema, onde você pode precisar dela na próxima vez que alguém beber muito da nossa cultura da violência e decidir desempenhar o papel do palhaço durante uma exibição de Batman ou levar para as ruas a violência dos desenhos animados. 
Saul Landau é escritor e cineasta estadunidense, autor de 14 livros e mais de 50 filmes, escreve em jornais e revistas.

Curiosamente, embora combatendo o espírito de violência dominante entre seus patrícios, o autor usa a palavra American (aliás, Unitedstatesian, ou equivalente, nem existe no seu idioma) para designar o que é estadunidense, endossando assim uma das primeiras e mais violentas manifestações dessa violência, que foi a de se apossarem eles virtualmente de todas as Américas – enquanto não o puderem fazer de fato – e assimilar Estados Unidos e América.

Retirado de http://goo.gl/WkAw5

Dormir só para descansar

Muita gente antes de dormir pensa: “Estou muito cansado e manhã tenho que acordar cedo porque tenho muito o que fazer. Vou dormir.”. Isso está certo?
É óbvio que não. Como eu venho dizendo, trabalhar não é tudo na vida.
Quando dormimos nós estamos descansando e , de certa forma, deixando de lado essa vida. Disso, eu tiro duas lições: Primeira: às vezes precisamos “dormir”. Se estamos cansados de tudo, de tanto trabalhar para ganhar algo devemos parar um pouco e simplesmente aproveitar a vida. A felicidade não está em bens materiais, mas em fazer aquilo que nascemos para fazer. Segunda: cuidar da saúde é algo mais importante que ganhar dinheiro e dormir significa tomar ciência disso. Muita gente não dorme para poder ganhar dinheiro e acaba tendo graves problemas de saúde. Novamente, a felicidade não está em bens materiais, mas sim em fazer aquilo que nascemos para fazer. Não nascemos somente para trabalhar. Também nascemos para dormir, para aproveitar a vida e para senti-la.

Se não tem carroça, vou a pé

Parece que o tempo acelerou nos últimos anos. Nos tiraram de uma carroça que andava a 6 km/h e nos colocaram em uma Ferrari a 200 km/h.
Parece que todos os filmes, peças, vídeos na net, livros e blogs que eram ótimos uns anos atrás, se esticaram e estão cada vez um pouco mais longos e, consequentemente, um pouco mais chatos.
Quem foi que me colocou nesse carro rápido?
Que carro é esse onde um vídeo de 7 minutos é muito longo para eu assistir, um texto de duas paginas é too much para eu ler e uma palestra de 45 minutos é longa de mais para eu ouvir?
Estou ficando enjoado. Por que cada curva da vida precisa ser feita nessa velocidade? Precisa ser feita com emoção? Tem como parar para eu descer?
Sei que vou parecer seu pai, ou até um pouco nostálgico, mas ir devagar tem suas vantagens.
Me lembro de ter andado de carroça bem novo em Rio Verde, Goiás. Andar de carroça tem suas vantagens.
Ouvir o trotar do cavalo é relaxante, da pra pensar um pouco em tudo, pensar no dia, no caminho que vai se traçar. Dá até tempo de uma breve conversa com a linda moça que passa a pé na estrada de terra.
Carroça não levanta muito pó, passa num ritmo que é bom pra todos, não faz curva perigosa em alta velocidade, por isso não me enjoa tanto.
E a paisagem, da pra ver os detalhes! Os animais pastando e até o pássaro amarelo cantando em um galho da árvore perto da cerca.
Já de carro rápido isso não é possível, já não vejo o pássaro, pois a árvore virou um borrão que mal se percebe passar pela janela fechada. O canto do pássaro amarelo, o oi da linda moça e o barulho das pegadas do cavalo não se ouvem mais.
Todos dizem: Pra que lembrar disso, se você está numa Ferrari? Se você vai chegar em seu destino em poucos minutos, e nesse pouco tempo você está na temperatura ideal que o ar condicionado te oferece…
Não sei direito o porquê. Mas quando eu chegar lá, no fim do caminho, quero contar um pouco de como foi o caminho, quero lembrar do olhar daquela moça, do canto do pássaro, dos pensamentos que tive na longa jornada.
Desculpa, mas quero descer. Se não tem carroça vou a pé mesmo, mas nesse ritmo não dá. Fiquei enjoado com as curvas, e nem abrir a janela pra receber um vento na cara dá, porque tem gente que vai reclamar que o cabelo vai bagunçar.
Para tudo agora, porque eu quero descer. Se não tem carroça, vou a pé.

Por Marcos Botelho. Retirado de: http://ultimato.com.br/sites/marcosbotelho/2012/10/22/se-nao-tem-carroca-vou-a-pe/